FAMA A QUALQUER PREÇO
por Miguel Marías



(These Thousand Hills). 1959. 20th Century Fox (96 minutos). Produção: David Weisbart. Roteiro: Alfred Hayes, baseado na novela de A. B. Guthrie Jr. Fotografia: Charles G. Clarke (CinemaScope, DeLuxe). Música: Leigh Harline. Cenografia: Lyle R. Wheeler, Herman A. Blumenthal (a.d.), Walter M. Scott, Chester Bayhi (s.d.). Montagem: Hugh S. Fowler. Elenco: Don Murray (Albert Gallatin “Lat” Evans), Richard Egan (Jehu), Lee Remick (Callie), Patricia Owens (Joyce), Stuart Whitman (Tom Ping), Albert Dekker (delegado Conrad), Harold J. Stone (Ram Butler), Royal Dano (Ike Carmichael), Jean Willes (Jen).




Não é, a rigor, meu western favorito, mas sim, sem a menor dúvida, um dos que prefiro; além disso, parece-me o melhor filme de um diretor pouco considerado mas que eu, reconhecendo que sua carreira é irregular, aprecio mais a cada dia. Não direi que é uma obra-prima, embora tenho a certeza de que assim me parece: após muitas revisões desde a primeira vez que o vi, há trinta e quatro anos já, até hoje, sempre me produziu o mesmo entusiasmo, a mesma emoção, o mesmo prazer e a mesma admiração.

Como amostra do gênero é exemplar. Visa grandes espaços; um vilarejo que está expandindo rapidamente e que se aburguesa e se puritaniza ao mesmo tempo em que progride economicamente, abrindo o seu caminho à civilização da lei e da ordem; foras-da-lei, proprietários de terras, vaqueiros ingênuos, garotas de saloon, jogadores amargos e aristocráticos, rebanhos de vacas, cavalos. Mas também esbanja inteligência, maturidade, clareza e senso de justiça – e de indignação com a injustiça – em sua análise sutil de uma sociedade em mudança e da evolução de suas personagens. Não tem heróis, e eu diria que é extremamente realista e que escapa a toda mitificação. É também, como muitos westerns, uma narrativa de aprendizagem, mas em mais de um campo e em diferentes direções.

Tem um casting insólito mas perfeito, com alguns dos melhores e mais obscuros coadjuvantes da sua época: Richard Egan e Stuart Whitman, o sempre patético Royal Dano, o sólido Harold J. Stone. Tanto Don Murray como Lee Remick estão magníficos. A fotografia em cores De Luxe e CinemaScope de Charles G. Clarke é uma das mais admiráveis que já vi: nunca voltei a encontrar uma captação tão palpável do frescor da madrugada, do suor do esforço, do brilho do couro dos cavalos, do cansaço dos corpos, da dor dos golpes, da água de um rio, da solidez ou da fragilidade de diversos elementos de madeira – uma mesa, uma escada, uma cerca –, da luz cambiante das horas do dia e das estações, da neve, dos pastos, do barro. Conta com uma canção, a do título, que me condenou a procurar inutilmente os discos de Randy Sparks, e com uma música de fundo acertada, discreta, charmosa e funcional. Tanto em interiores como em exteriores, em close-ups de dois atores como em grandes planos gerais de milhares de vacas ou das “mil colinas” de Montana a que alude o título original, o emprego do formato panorâmico é admirável: característica esta habitual em Fleischer desde 1954 e uma das mais ilustres do seu estilo discreto, naquela época longe de qualquer excesso.

Sua falta de pretensão talvez explique por que os fãs do western psicológico passaram ao largo deste filme verdadeiramente maduro, crítico e inteligente, no fundo bem semelhante a Antes da revolução (Prima della rivoluzione, Bernardo Bertolucci, 1963-1964); lúcido como Rio violento (Wild River, Elia Kazan, 1960); trágico como Desafio à corrupção (The Hustler, Robert Rossen, 1961) e Doce pássaro da juventude (Sweet Bird of Youth, Richard Brooks, 1961-1962); complexo e imparcial como Vendaval na Jamaica (A High Wind in Jamaica, Alexander Mackendrick, 1965); duro como Rio Conchos (Gordon Douglas, 1964); sobriamente lírico como Nas margens do Rio Grande (The Wonderful Country, Robert Parrish, 1959) e Fora das grades (Run for Cover, Nicholas Ray, 1954-1955). Ilustração perfeita das virtudes do cinema clássico americano no seu momento culminante de esplendor e de maturidade, um pouco antes de iniciar sua decadência, é um grande filme sobre o amor e a descoberta do erotismo, mas também sobre a ambição e o seu poder corruptor, sobre a sociedade e a solidão, sobre a discriminação e a integração em um grupo, sobre a amizade, a tentação, a traição e a vergonha. Questões éticas universais que não chegam a ser discutidas, mas que se encarnam na peripécia dramática vivida por algumas personagens, as quais chegamos a conhecer e a compreender como em poucas ocasiões, em uma história linear que nos é narrada e que vai ao essencial, com ordem e serenidade, com exaltação e pudor, com tensão e ternura, com delicadeza e violência contida. Há, em Fama a qualquer preço, um sentimento exaltante de harmonia e de plenitude que, como todo equilíbrio instável, intuímos como precário, e que se rompe prontamente, às vezes dolorosa ou muito brutalmente, sob o peso das contradições, da pressão das opções impostas, do mal-estar que provoca o conflito entre a liberdade e a conveniência. Há também uma trágica impressão de que a passagem do tempo corrói tudo, de que não se consegue nada se não for em troca de outra coisa, e de que esse dilema não possui escapatória.

Não se deve esquecer o roteiro de Alfred Hayes, que escreveu Só a mulher peca (Clash by Night, 1952) e Desejo humano (Human Desire, 1954), de Fritz Lang, e o romance de A. B. Guthrie Jr., autor de Céu aberto (que Howard Hawks adaptou em O rio da aventura [The Big Sky, 1951-1952]) e Os brutos também amam (Shane, George Stevens, 1951-1953), mas o fundamental é uma direção de atores que hoje se esquecida: para saber o que uns olhos, uma mandíbula, os ombros ou a maneira de andar podem expressar, deve-se ter visto Callie (Lee Remick) após terminar de se arrumar, dando-se conta de que Lat (Don Murray), em um ataque de timidez e medo, foi-se embora, deixando a caixinha de música tocando; e Lat, após beber em um estábulo junto com um bêbado para animar-se, cambaleando rumo à casa de Callie. Ou, mais tarde, o ciumento Jehu (Richard Egan) tirando com uma faca a dedicatória a Lat no bolo de aniversário que Callie fez para ele. Ou o desgosto e a decepção de Tom quando reprova Lat por deixar de lado seus amigos. Ou Lat confessando à sua mulher, a pobre Joyce (Patricia Owens), seu relacionamento com Callie e o que ele deve a ela, dizendo que ela terá de acreditar nele. Ou Lat abrindo uma cortina e descobrindo o rosto de Callie espancado, desfigurado por Jehu. Ou Lat apostando sua reputação social, seu futuro e seu matrimônio dando a cara a tapa, lutando por Callie com Jehu, em parte para se perdoar por não ter conseguido evitar que enforcassem Tom (Stuart Whitman) após ter falhado com ele ao se recusar ser seu padrinho de casamento, em parte para não trair a todos os amigos, sacrificando-os para obter um lugar ao sol e se deixar levar ao senado pelas mãos dos proprietários respeitáveis da região.




(Nickel Odeon n.º 4, outono de 1996, pp. 121-122. Traduzido por Bruno Andrade e Valeska G. Silva)

 

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