CONCLUSÃO DE “IL CINEMA IN U.S.A.”
por Sergio Sollima



É possível, após cinquenta anos do seu nascimento, ao término deste segundo conflito mundial, fazer um balanço do cinema americano e atribuir-lhe um juízo?

Talvez seja possível, mas certamente não é fácil, tanto este é cheio de chiaroscuri e de contradições que podem parecer incompreensíveis.

Nós dizemos “cinema americano”, mas todos sabemos bem que Hollywood está nas mãos de grupos restritos de industriais ligados a Wall Street e que estes estão longe de representarem a real expressão do povo americano. Apesar disto, não são apenas os espectadores yankees, mas os de todo o mundo, que continuam a ir assistir aos seus filmes e, mais do que isso, parecem encontrar neles as suas aspirações mais secretas.

Sabemos que estes grupos orientam toda a produção cinematográfica aos caminhos que podem afastá-la da realidade da vida, rumo a formas de sonho, de evasão. No entanto, apesar destas orientações, estas verdadeiras e singulares diretivas, a realidade, expulsa pela porta, acaba retornando pela janela. Até nos filmes mais idiotas, absurdos, de quinta categoria, nós sentimos um “algo” ligado à realidade, da mesma forma que contrariamente, até mesmo nos melhores filmes, aqueles em que um verdadeiro artista consegue dar peso humano e realístico à sua obra, transparece aquele senso de “revisado e corrigido” tão típico de Hollywood.

Sabemos o quanto nos filmes americanos se fala dos grandes ideais, o quanto cada personagem está amarrada aos esquemas de um romantismo mais ou menos ardente, o quanto a censura vigia para que a mensagem da América, que esses filmes exportam para todo o mundo, esteja em conformidade com todas as morais e todas as religiões, para que ela seja uma mensagem de um país ideal, modelo e meta para todos os povos. Apesar disto, até nos filmes mais inócuos e de boa natureza aparece claramente ao espectador ativo o quadro de uma civilização verdadeiramente materialista, talvez provida de todos os bens de Deus, menos de um ideal.

De todo modo, o juízo global mencionado anteriormente não poderia deixar de ser rigoroso. O cinema americano é negativo, uma vez que conta com a parte menos nobre e mais superficial do homem enquanto “divertimento” (no sentido literal da palavra, de divertir, evadir), e tudo o que visa afastar o homem da compreensão de si mesmo só pode ser negativo. Contudo, a severidade deste juízo não deve absolutamente transformar-se em pessimismo, pois o cinema é apenas uma técnica, um instrumento nas mãos do homem, e cada vez que é utilizado pode sê-lo de uma maneira completamente nova. Exatamente como no caso da energia atômica.

Hollywood hoje é um organismo vigoroso com uma efetiva possibilidade de inserir-se e, além disso, de auxiliar a trajetória da humanidade.

O amor que dedicamos às pessoas e à terra da América e o amor que dedicamos ao cinema incitam-nos a sentir uma grande satisfação cada vez que se pode distinguir em um de seus filmes uma palavra nova, um senso genuíno de progresso, pois sabemos que os problemas e as dificuldades do cinema americano são as mesmas do povo americano e que o futuro de um é o futuro do outro.


(Il cinema in U.S.A. Roma: Anonima veritas editrice, 1947, pp. 234-235. Traduzido por Kevin Albuquerque e Fábio Visnadi)

 

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