A VOZ DE MILIUS


John Milius é autor de numerosas objeções do cinema americano tornadas objeto de adoração. “I love the smell of napalm in the morning” são as suas credenciais. Roteirista e dialoguista, Milius possui um talento literário inconfundível que transparece numa altura na voz off melancólica que suporta os enredos, noutra no discurso e diálogos bélicos, másculos e reverberadores que dilatam a dimensão solene de sua dramaturgia. Ainda adolescente, o leitor voraz descobriu ter a capacidade de imitar o estilo dos autores que admirava: Hemingway, Conrad, Melville... Escrevia seus roteiros como os romances, recusando o jargão técnico dos profissionais do cinema em benefício das suas descrições singulares. Enquanto morava na garagem dos pais, embolsou noventa mil dólares por Mais Forte que a Vingança, filmado por Sidney Pollack. Apadrinhado pelos acordos de F. F. Coppola, aos poucos adentrou a indústria do cinema e apesar da dificuldade de realizar, nunca deixou de escrever e reparar argumentos, cenas ou diálogos para outros cineastas. A qualidade literária do texto em enredos essencialmente apontados para a ação não prejudica a eficácia direta de sua mise en scène, visto que a autoridade do orador está no mesmo pé da potência silenciosa que coloca a beleza da linguagem a serviço da narrativa. Tomei a liberdade de escolher alguns fragmentos que representem um cineasta que traz à mão armada uma caneta, mas que também é um contador de histórias, um mascate de mitos que busca sem descanso alcançar a encenação do processo da ficção.

Marlon Krüger

 

“Seu nome era Jeremiah Johnson. Dizem que ele queria ser um montanhês. A história diz que ele foi um homem inteligente e aventureiro próprio para as montanhas. Ninguém sabe de onde ele veio, mas isso não importava muito. Ele era jovem e as histórias de fantasmas nas colinas não o assustavam. Ele procurava um Hawken, calibre 50 ou melhor. Acabou com um 30, mas, diabos, era um Hawken genuíno. Melhor impossível. Comprou um cavalo e outras coisas necessárias à vida nas montanhas. E disse adeus à vida que tinha lá embaixo.”

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Jeremiah Johnson: [Jeremiah e Caleb vêem um pássaro cruzar o céu] Falcão. Está indo para Musselshell. Eu levo uma semana a cavalo. Ele chegará lá em... Puxa, ele já chegou.

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[Jeremiah acha o corpo congelado de Hatchet Jack] Jeremiah Johnson (lendo): “Eu, Hatchet Jack, tendo a mente sã e as pernas quebradas deixo aqui o meu rifle para quem o encontrar. Deus queira que seja um branco. É um bom rifle e matou o urso que me matou. De qualquer forma, estou morto. Atenciosamente, Hatchet Jack.”

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Multidão: Quem é você?
Juiz Roy Bean: A justiça, filhos da puta!

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Homer Van Meter: Filho da puta! Filho da puta! Filho da puta. As coisas não estão indo bem para mim.

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Pearl: Você se parece com o Dillinger, Sr. Long. Já lhe disseram isso?
John Dillinger: Oh, não. John Dillinger, o criminoso?
Pearl: Uh-huh.
John Dillinger: Não, tem quem pense que pareço o Douglas Fairbanks.
Pearl: [risos] Gosto mais do Dillinger.
Homer Van Meter: Mas é parecido. Estou farto de lhe dizer.

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Harry Callahan: Um homem precisa saber suas limitações!

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Rei Osric: Chega o momento, ladrão, em que as jóias deixam de luzir, em que o ouro perde seu brilho, em que a sala do trono torna-se uma prisão e tudo o que resta é o amor de um pai por sua filha.

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Conan: Lembro-me de dias assim, quando meu pai me levava à floresta e comíamos frutas silvestres. Há mais de 20 anos. Eu tinha apenas 4 ou 5 anos. As folhas eram tão escuras e verdes naquela época. A grama tinha um cheiro doce sob o vento da primavera.
[pausa]
Conan: Quase 20 anos de combate impiedoso! Sem descanso, sem sono, como outros homens. E o vento de primavera ainda sopra, Subotai. Já sentiu um vento assim?
Subotai: Eles também sopram na minha terra. No norte do coração de todo homem.
Conan: Nunca é tarde demais, Subotai.
Subotai: Não. Ele apenas me traria de volta um outro dia. Em companhia muito pior.
Conan: Para nós, não há primavera. Só o cheiro fresco do vento antes da tempestade.

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Pai de Conan: O fogo e o vento vêm do céu, dos deuses do céu, mas Crom é o seu deus. Crom vive dentro da terra. Os gigantes viviam dentro da terra, Conan. E, na escuridão do caos eles enganaram Crom e dele tomaram o enigma do aço. Crom zangou-se e a terra tremeu. O fogo e o vento derrubaram os gigantes e lançaram seus corpos na água. Mas, em sua ira, os deuses esqueceram o segredo do aço e o deixaram no campo de batalha. E nós, que o encontramos, somos apenas homens. Nem deuses, nem gigantes: apenas homens. O segredo do aço sempre carregou consigo um mistério. Deve aprendê-lo, jovem Conan. Deve aprender a sua disciplina. Pois ninguém... ninguém neste mundo é confiável. Nem os homens, nem as mulheres, nem as feras.
[aponta para a espada]
Nisto você pode confiar.

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Subotai: Ele é Conan, o cimeriano. Ele não chorará. Então, eu choro por ele.

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General mongol: Conan, o que é o melhor da vida?
Conan: Esmagar seus inimigos, vê-los caídos diante de seus olhos e ouvir os lamentos de suas mulheres.

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Capitão Fairbourne: Se você era um comunista como se tornou um rei?
Learoyd: Apenas um comunista pensaria nisso.

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Learoyd: A partir desse dia, a partir de agora, eu nunca mais levantarei minha mão contra outro homem.

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General MacArthur: A história é escrita por homens incomuns. Alguns podem até se tornar reis e outros não fazem mais marca do que jogar uma pedra no oceano. O que temos aqui... bem, nós simplesmente não sabemos, não é? Mas, capitão, se você diz que ele é um rei, eu vou acreditar em você. Eu assinarei esses tratados... como Comandante das Forças Aliadas na Guerra do Pacífico. E se o seu rei estivesse aqui... eu me ajoelharia diante dele e ofereceria minha espada. Se eu tivesse uma espada.

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Jed Eckert: [eles examinam uma paisagem invernal enquanto tanques se reúnem para atirar] Você atravessou isso?
Coronel Andy Tanner: Apenas uma parte. Espero que nossos rapazes ainda estejam lá.
Jed Eckert: Então isso é o campo de batalha?
Coronel Andy Tanner: É uma guerra de verdade, garoto. Está aqui todos os dias.

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Erica: [depois que o Coronel morre] Eu nunca mais vou amar ninguém!
Robert: Se você não amasse ninguém, você não estaria aqui agora...

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Jed Eckert: [depois das mortes de Aardvark e do Coronel Tanner] Não acha estranho? Como as montanhas não prestam atenção em nós. Podemos rir ou chorar... que o vento continua soprando.

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Strelnikov: O que eu mais desprezo sobre a guerra é a hipocrisia que ela alimenta. Ouvi eufemismos sobre conter o inimigo e que nosso setor de pacificação está crescendo. São táticas para contar mentiras. Mentiras que fedem a morte e a derrota. Só podemos vencer uma guerra exterminando o inimigo. Sabem contra quem lutamos? Lutamos contra os Wolverines. Animais pequenos e ferozes. Para isso, precisamos de um caçador. E vocês sabem que eu sou caçador. Deste momento em diante não haverá mais represálias contra civis. Isso foi estupidez. Impotência. Camaradas, se uma raposa ataca suas galinhas você mataria o porco porque ele viu a raposa? Não. Você caçaria a raposa e descobriria onde ela vive e a destruiria! E como faremos isso? Nós nos tornaremos raposas.

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Raisuli: A Theodore Roosevelt - você é como o Vento e eu como o Leão. Você modela a tormenta. A areia arde meus olhos e a terra está árida. Eu rujo em desafio mas você não ouve. Mas entre nós há uma diferença. Eu, como o leão, devo permanecer no meu lugar. Enquanto você como o vento nunca saberá o seu. - Mulai Ahmed er Raisuli, o Magnificente, Senhor do Rif, Sultão dos Berberes, último dos Piratas Bárbaros.

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Xerife de Wazan: Grande Raisuli, perdemos tudo. Tudo foi arrastado pelo vento, tal como disse. Perdemos tudo!
Raisuli: Xerife, Xerife, não há nada na sua vida pelo qual tenha valido a pena perder tudo?

 

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