À BORDA DA MORTE, Robert D. Webb, 1956
por Jacques Vallée


Para lutar contra um bandido, um xerife contrata como ajudante o filho de um pistoleiro que ele matou...

Raramente o western fundiu o intimismo e a política com tanta evidência. A crônica dos últimos dias do mandato do xerife de uma cidade em plena expansão econômica permite aos autores abordar várias temáticas, algumas típicas do western (a relação entre o homem da lei experiente e o jovem cachorro louco, o estabelecimento do law and order...), outras mais inesperadas (o envelhecimento que o torna inapto ao trabalho). O tratamento é simples e preciso, o ritmo é amplo e fluido, o olhar é direto e sempre à altura do homem. Claramente, pensa-se em Hawks, em especial por Walter Brennan que faz aqui rigorosamente o mesmo personagem que em Onde Começa o Inferno, a ser lançado dois anos mais tarde.

O filme é cheio de detalhes que dão espessura aos personagens e enriquecem a intriga. Assim há o ajudante que renuncia sem que se saiba se foi por covardia ou porque sua mulher está para ter filhos. A melhor dessas ideias é sem dúvida o xerife ficar sujeito a crises de cegueira parcial após ser agredido. Essas crises obrigam por vezes o herói a fugir diante do inimigo, e por isso o humanizam consideravelmente. Mais sutilmente, encontra-se o peso dessa humanidade do herói em sua implacabilidade quase obsessiva. Como prova, há a cena em que ele explode de cólera diante de um conselho municipal que se acomoda às novas espeluncas, muito boas para os negócios. A atuação extraordinária do grande Robert Ryan (é talvez seu melhor papel no cinema) transmite todo o rigor puritano que motiva seu personagem, às vezes contra as pessoas que o elegeram.

De modo geral, o compromisso moral da comunidade é muito bem mostrado: precisa e gradualmente. Não há simplificação abusiva e demagógica a serviço de qualquer mensagem política ou saída de uma convenção mal digerida, mas a apresentação clara, rigorosa e inteligentemente dramatizada dos prós e contras de uma situação dada. Em poucas palavras: uma jóia da mise en scène.

Em suma, À Borda da Morte é um dos melhores westerns urbanos já feitos.

(originalmente publicado no blog Avis sur des films [em http://films.nonutc.fr/2012/08/17/le-sherif-the-proud-ones-robert-d-webb-1956/], mantido pelo próprio autor. Traduzido por Matheus Cartaxo)

 

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