HANOI ROCKS!
por Jesús Cortés


INTRUDER A-6 - UM VÔO PARA O INFERNO (Flight of the Intruder). 1991. Paramount Pictures (110 minutos). Produção: Mace Neufeld, Robert Rehme (não creditado). Produção executiva: Brian Frankish. Co-produtor executivo: Ralph Winter. Produtor associado: Lis Kern. Roteiro: Robert Dillon, David Shaber, John Milius (não creditado), baseado na novela de Stephen Coonts. Fotografia: Fred J. Koenekamp (Super 35, Technicolor). Música: Basil Poledouris. Cenografia: Jack T. Collis (p.d.), E. Albert Herschong (a.d.), Mickey S. Michaels (s.d.). Montagem: C. Timothy O’Meara, Steve Mirkovich, Peck Prior. Elenco: Danny Glover (Comandante Frank ‘Dooke’ Camparelli), Willem Dafoe (Comandante Tenente Virgil ‘Tiger’ Cole), Brad Johnson (Tenente Jake ‘Cool Hand’ Grafton), Rosanna Arquette (Callie Joy), Tom Sizemore (Boxman), J. Kenneth Campbell (Comandante Tenente ‘Cowboy’ Parker), Jared Chandler (Tenente Jack ‘Razor’ Barlow), Dann Florek (Comandante Tenente Mad Jack/Doc), Madison Mason (Comandante da Frota), Ving Rhames (C.P.O. Frank McRae), Christopher Rich (Tenente Morgan ‘Morg’ McPherson), Douglas Roberts (Guffy), Scott Newton Stevens (Hardesty), Justin Williams (Tenente Sammy Lundeen), John Corbett (Big Augie), Adam Nelson (Little Augie), Adam Biesk (bibliotecário), Reb Brown (controlador do tráfego aéreo), Peter Sherayko (escriturário), J. Patrick McNamara (Almirante), David Glyn Price (Almirante), James O’Neel (novato), Hugo Napier (repórter), David Schwimmer (oficial de serviço), Richard Fancy (Capitão de Inteligência), Rick Dano (piloto bêbado), Mike Jolly, Tom Kriss, Jeff O’Haco (rufiões), Grove E. Johnson (garçom - ‘Skipper’), Jonnie C. Pangyarihan Sr. (taxista filipino), Duane Matthews (Jack ‘Hammer’ Johnson), Eddie Badiang (o assassino de Cole), Minh Huu Do (soldado do Pathet Lao), Brian Khaw (oficial do Exército Popular do Vietnam), Dr. Akio Mitamura (atirador), Alison Furrevig (Sallie), Connie B. Canales (prostituta), Ernie Seliceo (rufião), Ken Wright (ajudante).

Escrita por dois especialistas em história de grupos, gangues e bandos tão pouco prolíficos como Robert Dillon e David Shaber, Intruder A-6 - Um Vôo para o Inferno é um dos últimos filmes de John Milius que foi exibido nos cinemas, recém acabada a década de 80, à qual se diria que ainda pertence.

Ao contrário do épico, do drama e do aspecto imbricado e misterioso de seu filme anterior, Uma Vida de Rei, Intruder A-6 - Um Vôo para o Inferno, que avança mais de vinte anos até o grande embate bélico no qual se viu envolvido os EUA, a Guerra do Vietnã, parece uma diversão complacente e maniqueísta.

Sempre interessado pelas grandes mudanças, pelas situações onde não resta mais solução senão decidir que vida se quer viver, quem se quer ser quando tudo desmorona ou escurece - como na citada Uma Vida de Rei ou em Amargo Reencontro, seus grandes filmes, e também em qualquer um dos não tão grandes ou somente interessantes que já fez - entende-se muito melhor o propósito de um filme como este simplesmente pensando que a guerra em si mesma não importa nada a Milius.

Chama a atenção o modo como se mostra a pressão do combate (brigas inúteis, rápidas invasões que contrariavam o novo tipo de guerrilha disseminada e por surpresa praticada pelos vietnamitas) e as ordens inúteis recebidas pelos pilotos, as relações que se estabelecem entre eles, mas sobretudo porque se toma partido, que faz com que seus personagens reajam, fraternais por natureza, mas somente com aqueles que eles elegem.

Assim, não há rastro de militância nem de patriotismo, de propaganda ou imperialismo, nem de uma ação exemplar ou “corporativa”, apenas a rebeldia e a vingança irracionais, suicidas, provocadas pelo fato de ter de cumprir missões secundárias, nas quais seus iguais morrem de forma estúpida: nem mais nem menos do que a antítese desse fascismo não demonstrado e malicioso do qual vinham lhe acusando - a ele precisamente, que se acreditou em algo na vida foi no individualismo, e gostava de declarar-se anarquista - desde que seu nome ficou famoso no final dos anos 70.

Com esse roteiro pensado por outros, o que não era o seu costume, Milius, a milhas do realismo “in your face” de Fuller e a uma distância ainda maior de filmes “recrutamento” como o blockbuster Top Gun - Ases Indomáveis (Tony Scott, 1986), conduz a metragem de Intruder A-6 relaxada e humoristicamente, despreocupado com a transcendência da morte ou da derrota, até que, pela metade do filme, é ativada sua maior baixa narrativa e ameaça a partir desse momento com uma moral “séria” ou um discurso altivo que, claro, nunca chegam.

Milius, felizmente, não põe em marcha nenhum mecanismo para esconder que seus personagens são, em sua maioria, uns jovens soldados com provavelmente pouca cultura, vulgares ou comuns sem essas circunstâncias que os rodeiam, com pouca experiência de vida. Não há grandes eruditos ou heróis capazes de encarnar em um olhar ou um gesto - se o diretor confia muito nos atores ou, se não tanto, pode utilizá-los como veículos para suas mais importantes intenções - o peso de conceitos e reflexões que abrumam e abusam do espectador em tantos filmes de temática bélica.

É, portanto, um dos melhores retratos de fundo possíveis do seu autor, um fanático por faroestes de série B, que nunca aspirou dizer grandes frases, apesar de ser escritor (diferentemente da maioria dos seus colegas de geração), alinhado apenas consigo mesmo, alguém que todavia, e talvez por este último, suportou como poucos o peso de ser considerado um outsider na hipócrita Hollywood.

Esta guerra a que não lhe deixaram ir é em suas mãos um assunto hawksiano, algo a que se entrega de antemão o destino, que comporta milhares de problemas e riscos (em troca de uma única compensação: o pertencimento a um desígnio tido como nobre), mas algo de que não se tem controle algum, porque não se detém diante de nada e segue seu próprio curso relegando - às vezes por puro desfrute ou absorção na tarefa - tudo o que se tem de próprio ou de pessoal a um lugar secundário, alheio e até externo.

Quando os tenentes Grafton (Brad Johnson) e Cole (Willem Dafoe) decidem ignorar as ordens de rotina que estão custando as vidas de seus companheiros e acendem o pavio numa rotação - inútil, pois a luta estava quase perdida - que ao menos lhes faria recuperar o orgulho, afina-se a planificação e entre as rajadas de metralhadora e os mísseis antiaéreos emerge o grande diretor de cinema, o que é capaz de dizer algo devolvendo a uma das funções de sua profissão, à altura do filme já perdidas, um sentido estrito: filmar eficaz, certeira, aplicada e até entusiasmadamente uma pequena vitória sem importância em uma batalha que “ninguém parecia querer ganhar”.

(Traduzido por Verônica Fernandes e Felipe Medeiros)

 

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