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AS AVENTURAS DE HAJJI BABA, Don Weis, 1954
De todos os contos, o d’As Mil e Uma Noites é sem dúvida um dos mais fascinantes. Ele sozinho contém todos os outros. O amor é a causa das maiores crueldades. Para realizar um desejo é preciso vencer desafios, pois o fracasso equivale à morte.
Um filme de época deveria dar uma visão contemporânea dos acontecimentos, como se eles se produzissem nos nossos dias, embora situados com precisão na época em que se desenrolam. O mais freqüente é um filme parecer uma “reconstituição”, através de uma encenação que leva mais em conta o que nos separa dos acontecimentos. O que uma época tem de permanente é escamoteado em benefício de um puro trabalho de historiador. O dever do cineasta será não acentuar as diferenças, mas mostrar o que as torna próximas de nós. Trata-se de ver entre as cortinas e as colunas, numa hierarquia que não é mais a nossa, os sentimentos imutáveis.
O conto é “uma narrativa de aventuras maravilhosas”, com sua lógica, absurda ou fantasiosa, mas que não pode ser contestada. Daí às vezes a brutalidade e a ingenuidade - aparentes - das cenas de violência. A esquematização dos acontecimentos é inseparável da própria forma do conto. Em níveis variados, O Sepulcro Indiano de Fritz Lang e As Aventuras de Hajji Baba de Don Weis ilustram perfeitamente essa proposição[1].
Freqüentemente, a cor parece “sobreposta”, embaraça a ação, traindo-a. Seu papel é estar estritamente ligada ao tema, exprimi-lo com mais força. Aqui, cada paisagem é o fiel reflexo da realidade. No deserto, Hajji e a Princesa param seus cavalos à beira de um lago. A Princesa se recusa a beber no cantil do seu companheiro. Ela finalmente cede, não sem má vontade, enquanto Hajji, ajoelhado à beira da água, refresca o próprio rosto. Algumas palavras são trocadas, alguns olhares, e nós sabemos tudo de seus sentimentos recíprocos. A verdade, a elegância, o arejamento de tal cena, corroboram nossas considerações. |
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2013 – Foco |