O FILME DE GUERRA
por Michel Mourlet


Há duas maneiras opostas de encarar o fenômeno da guerra, dependendo de como se considera suas causas ou seus efeitos. Suas causas, sejam econômicas, políticas, ideológicas, com raras exceções sempre trazem, em última análise, o estado de espírito de alguns que se servem dos outros para prolongar e enfrentar suas paixões. Mercenários ou cidadãos, os soldados estão lutando por razões que ignoram e que pouco os concerne. Nenhuma guerra é inevitável, uma vez que é feita pelos homens. Mas porque ela é feita pelos homens, a guerra é uma atividade normal, cotidiana, como beber, comer ou ter filhos. A guerra, todos a conduzem todos os dias. É sempre a mesma, apenas a escala muda. A diferença está nos meios. E é justamente por ser dessa maneira, de ser a bota e não o pé, que o soldado é privado de sua glória, se olharmos apenas para as causas primeiras do tumulto que tem por missão provocar. Ele aparece como um cordeiro levado ao matadouro, um infeliz irresponsável a quem a hipocrisia dos líderes vai ensinar que é belo morrer.

A segunda maneira é considerar os efeitos. Eu entendo por efeitos não as catástrofes mas o novo ambiente engendrado pela guerra, a espécie de universo à parte que ela propõe à liberdade dos seres que ali se movem. O militarismo e o anti-militarismo são igualmente insensatos. A vida não se importa com as opiniões que temos dela. Eis por que só se pode admitir um olhar de fogo que consuma todos os problemas e despoje passionalmente dessas gangas impuras a forma simples das coisas para melhor descrevê-las. A forma simples da guerra pode ser distinguida neste novo ambiente que é como a exacerbação do outro, multiplicando os ódios, os obstáculos, o medo, a morte, mas também a amizade e, quando este se apresenta, o repouso. Se a vida só tem preço se intensamente vivida, a guerra oferece suas alegrias e seus perigos para as almas fortes. Certo que as guerras modernas são cada vez mais desprovidas de nobreza, atingindo aqueles que estão fora dela de surpresa com a cegueira bestial dos assassinos. Elas cessam assim de ser humanas e se tornam desastres naturais. Ninguém pode desejar a guerra, muito menos desejar que a terra se abra e engula um povo inteiro. Mas se por qualquer desses decretos do acaso que a física determina melhor do que os filósofos, de um encontro em que nasce a luz, então por que não tentar, em pleno conhecimento de causa, roubar uma centelha? Esquecemo-nos que o bem também nasce do mal, o que um herói stendhaliano traduziria numa máxima insolente: « Pegue o melhor de tudo. »

Esta máxima, nenhuma expressão a formula melhor do que os filmes americanos. Eu falo dos grandes americanos, filhos de Griffith, como Dwan e sobretudo Raoul Walsh, para quem tudo é carne e sol; não os pequenos pensadores contaminados pela Europa. A guerra em suas obras não é jamais assunto de reivindicações morosas, mas o ambiente excepcional, o revelador químico do homem desnudado. O vento de uma hélice terrível rasgou sua armadura, suas roupas, sua máscara e eis que ele agora fala uma nova voz, vinda das profundezas do tempo e do fundo de seu corpo. A guerra, por uma separação que na realidade se atribui ao canto profundo do coração, constitui um meio de conhecimento. O sofrimento físico, uma caminhada sobre um fio por cima da morte, reduz esta épica corda bamba a um mesmo denominador da simplicidade, de grandeza elementar que resume a luta do homem e do mundo. O sofrimento não tem sentido, não acrescenta nada, não é admirável: ele está , apenas, como uma pedra que obstrui o caminho. Não é o sofrimento que nós amamos na transpiração desses rostos, mas o desejo assombroso de vencer. E se a morte do herói é bela, não é que não seja assustador deixar a luz e o sorriso das jovens mulheres, é que o universo vitorioso, elevando ao mais alto grau de tensão e dilaceração a criatura, descobre-a divina no momento em que a mata. O sublime nasce da contradição em seu apogeu, por isso mesmo concluída em favor do homem - mesmo que aniquilando-o. Essa coragem, imobilizada bruscamente em seu curso, é bela porque se recusa a morrer. Toda uma alma surge, repugnada, capaz de conhecer e de querer. Dada a obscuridade furiosa, um deus se apaga sob a força da clareza.

A captura desse segundo ofuscante antes da queda na escuridão atrai e polariza a mise en scène tal como o rastro da serpente até o cume da montanha para descer ao outro lado rumo a vales mais agradáveis. Isso requer uma inocência e uma virilidade das quais esses cineastas rudes detêm o privilégio. A selva, um céu nublado com asas de aço, um mar onde os navios cambaleantes perdem seu sangue inflamado são o espaço natural de seus gênios. Filmando as batalhas da Córeia e do Pacífico, eles deram ao nosso tempo suas únicas epopéias.

(Sur un art ignoré ou La mise en scène comme langage, Ramsay, 2008, pp. 65-67. Traduzido por Marlon Krüger)

 

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