UMA VIDA DE REI
por João Palhares


FOCO - Agosto 2013

(Farewell to the King). 1989. Film Plan Financing Number 1/David Hannay Productions (116 minutos). Produção: Albert S. Ruddy e Andre Morgan para a Ruddy Morgan Productions. Produtores associados: Ralph Marshall, Gopala Krishnan, Charles Hannah. Roteiro: John Milius, baseado na novela L’adieu au roi, de Pierre Schoendoerffer. Fotografia: Dean Semler (Technicolor). Música: Basil Poledouris. Cenografia: Gil Parrondo (p.d.), Bernard Hides (a.d.). Montagem: Anne V. Coates, C. Timothy O’Meara (supervisionada por John W. Wheeler). Elenco: Nick Nolte (Learoyd), Nigel Havers (Capitão Fairbourne), Marius Weyers (Sargento Conklin), Frank McRae (Sargento Tenga), Marilyn Tokuda (Yoo), Elan Oberon (Vivienne), William Wise (Dynamite Dave), John Bennett Perry (General MacArthur), James Fox (Coronel Ferguson), Gerry Lopez (Gwai), Aki Aleong (Coronel Mitamura), Wayne Pygram (Bren Armstrong), Richard Morgan (Strech Lewis), Choy Chang Wing (Lian), Michael Nissman (General Sutherland).

A work that aspires, however humbly, to the condition of art should carry its justification in every line... To snatch in a moment of courage, from the remorseless rush of time, a passing phase of life is only the beginning of the task. The task approached in tenderness and faith is to hold up unquestioningly, without choice and without fear, the rescued fragment before all eyes and in the light of a sincere mood. It is to show its vibration, its colour, its form; and through its movement, its form, and its colour, reveal the substance of its truth -- disclose its inspiring secret: the stress and passion within the core of each convincing moment. In a single-minded attempt of that kind, if one be deserving and fortunate, one may perchance attain to such clearness of sincerity that at last the presented vision of regret or pity, of terror or mirth, shall awaken in the hearts of the beholders that feeling of unavoidable solidarity; of the solidarity in mysterious origin, in toil, in joy, in hope, in uncertain fate, which binds men to each other and all mankind to the visible world.

Joseph Conrad

He spoke to her of his own island, where the gloomy forests and the muddy rivers were unknown. He spoke of its terraced fields, of the murmuring clear rills of sparkling water that flowed down the sides of great mountains, bringing life to the land and joy to its tillers. And he spoke also of the mountain peak that rising lonely above the belt of trees knew the secrets of the passing clouds, and was the dwelling-place of the mysterious spirit of his race, of the guardian genius of his house. He spoke of vast horizons swept by fierce winds that whistled high above the summits of burning mountains. He spoke of his forefathers that conquered ages ago the island of which he was to be the future ruler. And then as, in her interest, she brought her face nearer to his, he, touching lightly the thick tresses of her long hair, felt a sudden impulse to speak to her of the sea he loved so well; and he told her of its never-ceasing voice, to which he had listened as a child, wondering at its hidden meaning that no living man has penetrated yet; of its enchanting glitter; of its senseless and capricious fury; how its surface was for ever changing, and yet always enticing, while its depths were for ever the same, cold and cruel, and full of the wisdom of destroyed life. He told her how it held men slaves of its charm for a lifetime, and then, regardless of their devotion, swallowed them up, angry at their fear of its mystery, which it would never disclose, not even to those that loved it most. While he talked, Nina’s head had been gradually sinking lower, and her face almost touched his now. Her hair was over his eyes, her breath was on his forehead, her arms were about his body. No two beings could be closer to each other, yet she guessed rather than understood the meaning of his last words that came out after a slight hesitation in a faint murmur, dying out imperceptibly into a profound and significant silence: ’The sea, O Nina, is like a woman’s heart’.

Conrad, em Almayer’s Folly, capítulo 11

Jim Jarmusch: What is God to you?
Samuel Fuller: Nature!


em Tigrero: A Film That Was Never Made

I look at a film like Farewell to the King, which is completely cut to pieces,
and I think maybe that was my best film.


John Milius, entrevistado por Ken Plume

Em meados dos anos 50, Samuel Fuller esteve para realizar um filme produzido por Darryl Zanuck e com o Duke, Ava Gardner e Tyrone Power como atores, chamado Tigrero. Viajou mesmo para o Brasil - pela selva e à catanada - à procura de locais de filmagem e encontrou a aldeia de Santa Isabel do Morro. Passou lá um tempo, imaginou seqüências inteiras a olhar para o que o rodeava - uma cena inicial a rimar com a final: as cadeias alimentares sangrentas e inevitáveis da vida selvagem (“That’s man eats man, animal eat man”, grita Fuller no documentário de Mika Kaurismaki), a empresa começava a tomar contornos palpáveis. Mas quando voltou com o roteiro e acertou os últimos pormenores com Zanuck, as seguradoras não quiseram pagar os seguros dos atores enquanto estivessem em rodagem, por acharem a aventura perigosa demais, e o filme não foi para a frente. O tempo que Fuller passou com os carajás perto das margens do Ariguaia, esse, não foi tempo perdido e, estou eu em crer, foi canalizado para um outro projeto: Run of the Arrow.

Naquele que é talvez o seu mais belo filme, Fuller deixa-se deslumbrar pelos índios nos olhos de Rod Steiger e constrói um conto de desobediência profundíssimo. É ver a conversa entre a personagem de Steiger e o capitão Clark, em que falam do Man Without a Country que ficou à deriva o resto da vida, no mar alto, sem poder visitar ou ter notícias do seu país; ou a última conversa, antes do regresso à “civilização”, com a mulher. “Is your tribe in this flag?”. Não é fácil cortar com as raízes. Como não é fácil “ligar a humanidade inteira ao mundo visível” no que se faz. Filmar um regresso à casa em procissão e com um travo à reconstrução, re-fundação, regresso não só aos pilares e fundamentos de um país, mas aos sonhos e aspirações passados de uma só pessoa. Àquilo em que acreditava e à nação em que acreditava. Nesse plano, não só nasce um país como renasce e se reinventa um Homem.

Run of the Arrow e Farewell to the King são ambos filmes sobre desertores. Começam exatamente da mesma maneira: uma seqüência pré-créditos com um inimigo a cavalo sob mira de fogo. A bala de O’Meara (Rod Steiger) é disparada - é a última usada na Guerra Civil -, mas o alvo (o tenente Driscoll) sobrevive; a de Learoyd (Nick Nolte) não chega a ser usada, o medo de ser apanhado ou a própria liberdade, ali tão perto, nas selvas de Bornéu, impedem-no de disparar para o oficial fantasma japonês. No decorrer dos filmes, e sem saber, vão ambos carregar o peso dessas balas (O’Meara leva-a mesmo no bolso das vestimentas, durante maior parte do filme, depois de lhe ter sido devolvida). E é aquela bala pendente, aquela hesitação em serviço, o que os vai permitir aceder ao outro mundo - um mundo melhor - e respirar da liberdade sem o peso da civilização, num limbo belíssimo e arrebatador. Mas a pátria e o dever vão voltar e assombrá-los e o inimigo poupado vai regressar, até chegar à altura em que a bala tem de ser disparada. E é agora este impasse, este “dispará-la ou não”, esta decisão, a fronteira entre a liberdade e a “pátria” ou a “nação” ou o “comum coletivo”, como lhe quisermos chamar. É preciso manchar as mãos de sangue para ser civilizado - e isto podemos tomar tanto como literal ou metafórico - e é por isso que O’Meara perde um pedaço de si quando dá o golpe de misericórdia ao tenente Driscoll, no fim de Arrow, e Learoyd deixa de ser o mesmo no último terço de Farewell to the King (depois do massacre dos japoneses, preocupa-se com o tempo pela primeira vez em muitos meses e pergunta ao capitão Fairbourne que dia e que ano é). Learoyd pergunta o dia para desistir dos “U. S. of A.” e o marcar como o último em que levanta a mão contra outro homem. Mas os políticos e generais também veneram o tempo. Há que agendar os nossos massacres a tempo e horas para poder honrar outros compromissos, como fazem os eruditos de Harvard em Heaven’s Gate, de Michael Cimino. Todos cineastas queimados por razões políticas. E estas subversões incompreendidas, que são dúvidas e questões muito pertinentes, no fundo, acabam por ser só a ponta do iceberg, tanto no caso de Milius como nos de Fuller e Cimino. Deixando os dois últimos para trás (haverá outras alturas para melhor falar deles) e acabando com as questões da superfície no filme de John Milius, o “adeus ao rei” é o que cá se constrói, saber que tem de haver alturas em que é preciso deixar a consciência vencer as obrigações (ou certas obrigações) e dizer adeus, libertar as amarras. Nesse sentido, até se pode argüir que é a personagem de Nigel Havers (o capitão Fairbourne) a principal. É dele a provação derradeira, é ele que tem que dizer “adeus” tanto ao rei Learoyd como a certos deveres ou ao “eu” que conhecia antes de ir para a selva. O “adeus” pode ser nosso também e é de Milius de certeza: adeus àquela raça de homens que já não existem porque os venceram os tempos... à liberdade e aos “days of high adventure”: os tais de que Milius muito consistentemente e a cada novo filme nos vai lembrando.

Por esses dias e pelo capitão Fairbourne se pisca o olho e se faz a ponte e homenagem a Conrad, o polaco que viajou metade da vida e resolveu escrever durante a metade seguinte.

Porque Farewell to the King é também filme de paisagens, é também filme dos arcos de transição para a maturidade, é também filme dos pontos de vista exteriores sobre nativos narrados por europeus e é também filme apaixonado por personagens. Que tenha sido chacinado pelos estúdios só nos faz antever e provar o seu potencial, que permanece intacto nas mais variadas cenas: a chegada de Fairbourne e do sargento Tenga (interpretado por Frank McRae, colaborador habitual de Milius) à ilha de Bornéu, esmagados pela natureza, tornados silhuetas e talvez peões de um plano mais elevado; a estória de Learoyd numa dúzia de planos muito bonitos de que retenho sobretudo um em que Yoo (Marilyn Tokuda) lhe é a ele revelada e se lhe faz luz por entre os arbustos dos trópicos. “The women saved me”. Impossível não nos lembrarmos, mesmo que por um breve instante, dos amores cósmicos das ilhas de Vidor e Murnau. O Pacífico e o coração são a mesma coisa, um mar sem fundo e de mergulhos desesperados, insensatos e inúteis; ou aquela cena em que se junta a aldeia inteira à volta de um recém-nascido e a música de Basil Poledouris (arriscava dizer ser esta a sua melhor banda-sonora) descreve círculos cada vez mais fechados e Milius o acompanha com planos à altura, num crescendo de intensidade entre choro, trovões e grandes-planos até a chuva e o plano-geral chegarem e tudo e todos benzerem e purificarem; ou o plano incrível do braço hirto em silhueta naquele céu manchado de sangue. De quem é aquela mão? Do rei com o reino e a rainha destroçados? Quanto custa pagar o sangue com sangue? Cura a angústia por que se tem que passar?

É por esta altura, numa rocha com vista para o rio, que se senta Learoyd, fazendo essas e outras perguntas. O “coronel fantasma”, como lhe chama Fairbourne, desapareceu. Fairbourne vai-se sentar e ouvir o rádio, que está numa gruta, perto. Fala o presidente Truman. A bomba tinha caído em Hiroshima uns dias antes. “We have used it in order to shorten the agony of war, in order to save the lives of thousands and thousands of young americans. We will continue to use it until we completely destroy Japan’s power to make war”. Novo tiroteio. Fairbourne é ferido e desce aos infernos até a sombra e a culpa desta guerra terrível o engolirem por inteiro, naquele incrível grande plano. Chama por Learoyd duas vezes. Acorda como de um pesadelo... Learoyd encontra o “coronel fantasma”, fazem uma saudação e este dá-lhe o sabre de combate. E querem-me convencer que Milius é um pró-guerra filho da puta… Como me querem convencer que o Ford era um racista filho da puta... Milius, como Ford no seu tempo, vive é obcecado com a guerra e com as maquinações, as nuances e os processos da História. Não quer manipular ninguém e sabe que há coisas que simplesmente não acontecem. Um pelotão vai Alemanha fora salvar um soldado chamado Ryan e Tom Hanks faz de herói com moral intocável exemplar e dos sacrifícios baratos. A seqüência inicial de câmara-ao-ombro é só um engodo para acreditarmos nestas balelas de que a guerra é um mal necessário e que desculpa certas decisões políticas. Ora aí está uma das muitas maneiras de glorificar a guerra. Manipulação pura. Em Milius, pelo contrário, os heróis são homens com o que de bom e mau vem com esta nossa condição. E se calhar, são os realizadores que se misturam com a ralé e se recusam a usar a ficção para se redimirem com a História - porque, acima de tudo, a querem compreender -, os que mais correm o risco de serem silenciados.

Farewell to the King não é o melhor filme de Milius (deixe-se esse título algures entre Big Wednesday, Conan the Barbarian ou Rough Riders) mas é certamente o mais apaixonado e o que mais nos conta do seu processo. Por que passou Milius, aqui, senão pelo que também Learoyd teve que passar? Ter que resistir a esta maldição do “bom senso” e do “politicamente correto” e às ventanias dos tempos, que já não são de deslumbres e de contato com a Natureza, com o “eu”, com os mitos ou o desconhecido (que se calhar até podem ser a mesma coisa). Já não eram em 1989, quanto mais hoje. Não, nós agora sabemos tudo. Não percebemos é nada.

“Farewell, my King!”

 

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2013 – Foco