HOMEM EM CHAMAS
por Marlon Krüger


CONAN, O BÁRBARO (Conan the Barbarian). 1982. Dino De Laurentiis Corporation (129 minutos). Produção: Buzz Feitshans, Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis (não creditado), D. Constantine Conte, Edward R. Pressman. Produtor associado: Ed Summer. Roteiro: John Milius e Oliver Stone, baseado em argumento de Ed Summer (não creditado) e no personagem criado por Robert E. Howard. Fotografia: Duke Callaghan (Todd-AO 35, Technicolor). Música: Basil Poledouris. Cenografia: Ron Cobb (p.d.), Pierluigi Basile, Benjamín Fernández, Veljko Despotovic (não creditado) (a.d.), Giorgio Postiglione (s.d.). Montagem: C. Timothy O’Meara. Elenco: Arnold Schwarzenegger (Conan), James Earl Jones (Thulsa Doom), Max von Sydow (rei Osric), Sandahl Bergman (Valeria), Ben Davidson (Rexor), Cassandra Gaviola (a bruxa), Gerry Lopez (Subotai), Mako (o mago - narrador), Valerie Quennessen (a princesa), William Smith (o pai de Conan), Franco Columbu (sentinela), Sven Ole Thorsen (Thorgrim), Nadiuska (a mãe de Conan), Jorge Sanz (jovem Conan), Luis Barboo (cabelo vermelho), Leslie Foldvary (garota do sacrifício no culto de Seth), Gary Herman (guarda do rei Osric), Erick Holmey (oficial de guerra turaniano), Akio Mitamura (General Mongol), Jack Taylor (Padre), Kiyoshi Yamasaki (espadachim).

Se o destino atinge alguém por uma eventualidade extrínseca, mata-o tal qual a flecha ao animal selvagem.
Se, porém, o alcançou por dentro e usando suas riquezas mais íntimas, fortalece-o e faz dele um deus.


Hermann Hesse

O vento que varre as montanhas da Ciméria forja um povo à beira de desaparecer e do qual emana um ressoar implacável e resistente. Olhares tão duros quanto os daquelas montanhas. Isto tudo aconteceu há muito tempo e já desapareceu da memória dos homens, num continente (a era hiboriana) onde a natureza está distante dos olhos atentos dos deuses celestes. A vida não é fácil, mas algumas pessoas conseguem prosperar: um de seus modos é o orgulho em dominar o segredo do aço. Conan é um dos filhos desta nação. Crescido em uma vila remota nas montanhas geladas, acudido pelo amor materno e pelos ensinamentos paternos sobre o deus feroz que seu povo venerava: Crom. A violência e a fúria um dia irrompem na aldeia de Conan sob a forma de cruéis saqueadores portando um estranho estandarte ofídio. Conan verá então seu pai perecer em combate e sua mãe ser assassinada pelo chefe demoníaco e sobrenatural desses misteriosos bárbaros: Thulsa Doom. Inicia-se então uma infância de sofrimentos que parece sem fim: escravo de tarefas extenuantes, sua grande força física foi rapidamente avistada por seu proprietário e torna-se gladiador. Suas vitórias sucessivas asseguram-lhe respeito e instrução. E Conan cresce. Na violência. No combate. Acorrentado. Até a noite de sua liberdade graças a um mestre que compreendia não ser mais digno de sua propriedade. Conan teve então a experiência da liberdade.

O filme adapta uma obra literária com certa liberdade, sem dúvida, porém ao juntar o conhecimento de Milius, a suma do roteiro de Stone, a música de Poledouris, que dota as imagens de uma dimensão de eternidade, e, é claro, Schwarzenegger, forma-se um todo de extrema autenticidade, o tanto quanto o Conan de Robert E. Howard já havia lançado mão. Tal como está, o filme é o mais puro apoderamento do trabalho de Howard, mas também é uma variação e por vezes um comentário sobre seu trabalho. O confronto com Thulsa Doom, pai maléfico, é sim um elemento um tanto platônico, mas sem fingimento, que culmina em todo o poder da cena final, no topo do templo de Doom: o duplo nascimento de um herói através de um segundo “pai” que dá um sentido a toda sua vida (através da vingança). Entre os elementos que compõem Conan, o Bárbaro, podemos notar um toque de bruxaria mais difuso do que nas histórias de Howard e, sobretudo, a brutalidade épica que a tudo impõe força e vitalidade, num contexto mais realista. Um vento épico constituído de som e fúria em seu conjunto, de uma brutalidade e selvageria rara, uma vingança de uma só vez dura e cruel, num mundo amargo e inculto.

O filme avança uma década, então. É uma experiência, uma experimentação rítmica conduzida por Milius que poderíamos, encorajados pelos temas viris de seus filmes, comparar ao método de um general em campanha, comparação que o cineasta Milius provavelmente reivindicaria. Bárbaro, general, pode ser; mas talvez mais ainda ele seja um poeta, levada em conta sua tendência pelo lírico. Notamos aos desavisados que Conan, o Bárbaro é um musical, uma coreografia. A cenografia obedece a essa lógica do ritmo. Apossando-se da lenda fictícia do último dos cimérios, Milius formulou seu próprio enigma do aço e buscou a technè do cineasta ou a busca de todas as artes modernas, que é o saber em si mesmo. O segredo do aço é também uma technè deixada por gigantes que lutaram contra os deuses no passado. A transmissão é, em origem, um gesto que altera a si próprio. A possibilidade de transmitir alega que uma herança só é realmente transmitida quando o sentido do outro se revela no nosso. A história do espírito criador de Benjamin, como Élie Faure bem apontou em O Espírito das Formas, seu último livro sobre história da arte, é uma história sem proprietários. O dom artístico não se possui; é alcançado quando se cria. No caso de Conan, a transmissão da technè diz respeito a um punhado de cenas, mas em especial a que planta a semente que germina no resto do filme: a conversa entre pai e filho, logo após os créditos iniciais. No nosso caso, como espectadores, a transmissão da technè fica a cargo do diapasão do filme, que descreveríamos mais simplesmente como o sentimento decorrente da acumulação de cenas antológicas como a da Roda da Dor, a decapitação derradeira de Thulsa Doom, o roubo dos diamantes em uma das torres do culto de Seth, a Árvore da Aflição e ainda o ataque dos demônios que desejam levar para longe a alma de Conan...

O mundo engendrado por Crom, dos picos glaciais brilhantes aos desertos malditos, entre serpentes gigantes, xamãs de trato sincero e bruxas ninfomaníacas, nos relembra Wagner e sua mitologia. E então? O objetivo não é dar uma legitimidade já adquirida há muito ou complicar apontando conexões falsamente inteligentes. A evocação de Wagner se dá pelo que isto nos ensina acerca dos desígnios de Milius com Conan. A lenda do rei ladrão (também bárbaro, pirata, libertador, escravo) não se diz em segredo: ela se cria, enfática, ativa, à imagem do corpo que irá encarnar o ônus.

Ópera da ação

Enxerga-se o projeto de Milius na seqüência de abertura e na cavalgada dos cavaleiros de Thulsa Doom. Os servos da serpente estendem-se até o vilarejo cimério, entre o rastejar e o cavalgar. Poledouris os acompanha com uma peça musical da bravura: percussão pesada e estrondo sinfônico, que descende da montagem de Crom, apeado aos ferreiros impiedosamente, até a espada de James Earl Jones a decapitar a mãe de seu futuro carrasco. Esta seqüência, que poderíamos chamar de prólogo, é estritamente musical. A morte da mãe de Conan é seu apogeu. Seu sacrifício pontua a abertura cambiante entre a violência bruta dos metais muito presentes e das notas que, subitamente, após significarem o nascimento de Conan, terminam por testemunhar a morte de sua mãe. O citado projeto de Milius do início do parágrafo, e mais especificamente sua coerência, revelam-se nessa seqüência.

Conan, além de coreografado e musical, é uma performance cênica. Essa apreensão do espaço é propícia à narração do épico (d’Os Dez Mandamentos a O Rei dos Reis aos pépla), transformado em espetáculo pelo cinemascope. Um mundo que não existiria sem a sinfonia sangrenta que lhe dedica Poledouris. Milius estruturou sua lenda ciméria em três vértices, ou três números musicais se quisermos pensar assim: a abertura, o ataque à torre da Serpente e a invasão do palácio de Thulsa Doom. O combate de esgrima e dança está vivo pela escolha dos intérpretes da epopéia de Conan. Sandahl Bergman é Valeria, a guerreira orgulhosa que mulher alguma substituirá no coração de Conan. Acontece que Bergman era bailarina e foi uma das dançarinas de Bob Fosse. Ela aparece em um dos números de seu penúltimo filme, O Show Deve Continuar, divisa do fim dos planos gerais repletos de evoluções graciosas em seu comprimento e largura para acompanhar o dançarino. Em Fosse, os corpos se fragmentam e, em seguida, a decupagem acelera, os eixos de ponto de vista multiplicam-se, o corpo cauteriza-se, e o plano obtém a alforria que nos levará aos videoclipes. Gerry Lopez (Subotai), por outro lado, é o grande surfista de tubos dos anos 70, colega de Milius e intérprete de si mesmo em Amargo Reencontro. É na cena de invasão ao palácio, em particular, por Conan e seus amigos, que os movimentos perfeitamente sincronizados de Subotai, Valeria e Conan dão uma dimensão estratégica inacreditável à ação. Porém, assim que o ataque se inicia, é a um verdadeiro ballet que somos convidados, realçados pela montagem extravagante que é executada; mais importante ainda, uma preocupação estética de uma potência quase nunca aproximada e cujo auge nos deixa ofegantes. Que seja o ataque à vila de Conan, a bela valquíria, o gladiador tornado besta feroz ou as paisagens (naturais ou não): tudo é belo. Nossos homens podem se orgulhar deles. Com Conan, o cinema alcançou um esboço último e abstrato do que todos nós carregamos dentro de nós inconscientemente: o espírito épico. Qualquer grande autor dos romances de cavalaria se reconheceria aqui. Assistir a Conan, o Bárbaro é um pouco como abraçar uma parte de sua alma e partir em direção ao sol nascente. Respirar o ar fresco depois de muito tempo trancado numa caverna. É escutar a canção do vento e a fúria das ondas no limite da noite. É sentir o coração bater depois de notar os cavaleiros na floresta. É abraçar a própria vida.

A corrida pelo novo herói

Realizado no início dos anos 80, Conan, o Bárbaro tem lugar dentro das renovações formais que acompanhavam a mudança de década e participa da revisão dos tipos morfológicos padrões. Para suportar o peso deste épico que Milius propõe reconstruir (refundar) foi necessária a aparência dos atores ser tão áspera quanto este mundo era inóspito, dimensionados assim para permitir ao ritmo de Poledouris uma expressão plena sem restrição. Para restaurar esse pulso de época - à margem da História - a exploração de sons metálicos, pesados, brutos foi o caminho escolhido. Estes são nuançados por melodias arcaicas fantasiando uma pegada oriental. A coerência domina. É um Todo rítmico modelado pelo cineasta e seu compositor, feito tangível nas longas corridas de Schwarzenegger, de estatura engrandecida pelos ângulos escolhidos, através das planícies. Elogio à polivalência de um corpo super treinado e hipertrofiado, ao pequeno Conan, ao exercício da espada, à escalada das montanhas, ao desmoronar dos adversários e ao amor. Bem mais do que uma ode ao seu ator-vedete, Conan marca o advento de um novo tipo de herói, um novo corpo cinematográfico. As silhuetas tacanhas tiveram o seu tempo. A década de 80, década que precisou ter seu poder recuperado, será a década de Schwarzenegger e Stallone.

A eficácia e a inteligência de Conan, o Bárbaro não se limitam a um mero começo de década. A lógica operática - que paradoxalmente justifica muitas cenas longas sem diálogo - aplicada ao herói fantástico como transparece em Conan prefigurou muitos dos grandes projetos do gênero. A representação de uma época fantasiada e idealizada, incluindo seu lado brutal, implicou a reformulação da temporalidade que o ritmo exprime e por conseqüência o modo de aparição dos corpos através dos quais o filme se manifesta. Esta lógica redesenha um corpo que empresta sua silhueta a um ex Mr. Universo de acento austríaco incompreensível. Schwarzenegger é decididamente uma escolha certa para encarnar essa força da natureza, franco e leal, selvagem e corajoso. O carisma que exala, a carne e o sangue nos movimentos que dá ao personagem de papel de Robert E. Howard são incríveis, como é (e permanece) Conan, no que é mais elementar. Nascido para encarnar o personagem!

Homem em chamas

Os créditos da abertura mostram-nos as etapas sucessivas da forja de uma espada. O fogo criador, a lâmina enterrada no gelo que fará o frio nunca mais deixar o metal e o símbolo da guarda ligado à lâmina. Tal como a espada, Conan também será forjado ao longo dos anos e dos eventos de sua vida. Ele será transformado em uma arma infinitamente mais temível que todas as espadas já forjadas por Hefesto, o deus dos ferreiros: ele se torna um homem. Mas ao contrário de uma espada glacial, o fogo é que não o deixará mais. O fogo da vingança que queima por dentro sem jamais se consumir. O fogo de sua vida será reavivado num deserto onde “o fogo nunca queima”, nas palavras do mago. E no mesmo local serão cremados os restos de seu eterno amor. Quando a morte se torna a única luz que ilumina a noite... ela torna-se o farol que irá guiar os inimigos de Conan até ele.

E ao final da noite, no terraço de seu adversário, o filme nos oferece uma cena suntuosa: todos os fiéis de Thulsa Doom, para quem ele discursava até alguns minutos, vão lentamente até o tanque do ritual (afundado em relação à escada gigantesca onde se ergue o triunfante Conan) para apagar suas tochas. Isto exprime o fogo da vingança de Conan que finalmente pode deixar de queimar, mas não só, pois veremos então o criador e libertador Conan: ele molda todas essas pessoas à sua imagem. Sem luz para guiá-los (o culto de Thulsa Doom trouxe uma, de qualquer maneira), eles pelo menos estão livres, como Conan. Aqui, ele é o contrário de Prometeu, em suma: em vez de trazer o fogo aos homens, ele o leva. E, portanto, ele restabelece aos homens sua honra. Assim como Prometeu, ele também foi castigado de modo semelhante, condenado a ser carcomido pelos abutres. E enfim, Conan, o purificador: o filme termina ainda no altar do culto maligno em chamas.

Tudo leva tempo. E o tempo parece sempre importar para Conan: não há tempo para andar na planície, é necessário correr. Não há tempo para desfrutar de seu amor. Não há tempo com a família. Não há tempo para viver. Há coisas demais a fazer e também muitas batalhas a lutar. Muito sangue a fluir. No entanto, será necessário ter tempo para se libertar. Aproveite o tempo para olhar os olhos vazios de um rei morto, para apreender sua espada abandonada. E quando o esqueleto do rei se inclina sob Conan, este último pode finalmente quebrar as correntes e deixar o túmulo. Deixando um local de morte, ele nasce em liberdade. E sua primeira palavra de homem livre será a de seu deus: Crom.

Seria Conan imortal? Ele sobrevive ao ataque à aldeia. Ele sobrevive ao suplício da Roda da Dor. Mesmo crucificado, ele consegue comer um abutre, lacaio da morte. Ele mesmo vai ser libertado da morte graças à mulher que o pergunta repetidamente: “Quer viver para sempre?”. Mas o que realmente importa nessa existência sem piedade ou suavidade de Conan? Ele passará por várias concepções, isto é certo. Em primeiro lugar, tem-se a sobrevivência como tal. Então, escravo, o combate, a destruição, a loucura da guerra. A liberdade de correr na planície, as obscuridades da bruxaria, a riqueza como ladrão e, finalmente, o amor. Pois, como diz o rei, “chega um dia em que o ouro perde seu brilho (...) em que a única coisa que importa é amor de um pai por sua filha”. E, finalmente, a liberdade.

Conan é realmente um bárbaro? É realmente sem lei? Sabemos que ele possui um deus. Mas ele não deixa de mostrar tolerância a outras crenças: sua discussão com Subotai sobre os deuses. O contrário de Thulsa Doom, que quer a hegemonia absoluta de seu culto. Quando Conan e seus amigos adentram a montanha do poder e se vêem diante de uma luxúria nova para eles (há mulheres em todos os lugares, a sala é suntuosamente decorada), Subotai não pode deixar de refletir: “É este o paraíso?” Mas Conan o destruirá ainda assim. Destruidor do céu ou do inferno, Conan recorda aos deuses que os homens não são títeres. Era uma serpente que havia conduzido o homem ao paraíso terrestre. E será um homem que perseguirá a serpente (literalmente, já que Thulsa Doom se transforma durante esta cena numa cobra gigantesca) do Éden corrupto. Justa recompensa das coisas, na verdade.

Crom é um deus violento, bem distante do que poderíamos chamar de paternal. E Conan tem dois pais diferentes. Seu verdadeiro pai lhe ensinou o culto de Crom e o segredo do aço, o único amigo em quem Conan deve confiar. Thulsa Doom é o segundo pai de Conan, como diz a ele ao fim? Sem Doom, Conan não teria se tornado o que é. De alguma forma, Doom criou Conan. Mas como muitos criadores (como os artistas), Doom não assume o que fez. Ele será destruído pelas conseqüências de seus antigos massacres. Doom explica a Conan o poder da carne, superior, segundo ele, ao poder do aço. Mas os dois pais de Conan estão errados. Ou os dois estão certos. O aço libera Conan, mas ele pode contar com seus verdadeiros amigos e com o amor. A carne será importante certamente, mas onde Doom a utiliza apenas para fazer o mal, Valeria - e Conan - serão guiados apenas pelo seu amor. Matando Thulsa Doom, Conan coloca-se no mundo. Ele, o filho de dois pais. O branco e o preto (num sentido simbólico, naturalmente). O bem e o mal. A carne e o aço. Mais do que um ladrão, mais do que um Rei, mais do que um Deus: Conan é um homem.

 

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