ENTREVISTA COM MICHAEL CIMINO
por Mário Fernandes


Durante a retrospectiva que a Cinemateca Portuguesa dedicou em 2005 ao cineasta norte-americano, uma rápida conversa entre ele e Mário Fernandes...

O que te interessa mais no cinema?

Interesso-me sobretudo por pessoas e pelo seu caráter - estou fora de políticas ou ideologias. Quero mostrar pessoas em determinadas situações. Os meus filmes são feitos por crianças que tentam dar o seu melhor, fascinadas pelo milagre do cinema: aquilo que está a acontecer, a luz, o argumento, o vento, o ambiente, a atmosfera... Não o fazem por dinheiro ou outra coisa qualquer.

Quando se justificou o cinema para ti?

Vi uma vez o John Wayne em público. Apesar da boa disposição, estava muito doente e foi a última vez que apareceu. O maior de todos era agora demasiado pequeno. Coisas destas podem justificar o cinema.

O Heaven’s Gate parece-me a morte do western por todos os excessos. Nada pode ser como antes. Como te fodeste no cinema? Por que paragens tão prolongadas? O que é pessoal e o que é imputável a um sistema?

Depois de acabar um filme, vem a grande depressão, o vazio. Foi muito tempo dentro de histórias que atravessam várias gerações, é difícil abandoná-las. Por outro lado, sou um maverick na América, é muito difícil filmar lá. Não faço por ter uma boa relação com os produtores. Isto para mim não é um trabalho, é uma paixão! Não faço filmes para ser famoso, ganhar dinheiro ou óscares. Há muitos anos que caguei para os lucros.

Alguma vez pensaste em realizar um western em Portugal? Temos paisagens poderosas...

Já pensei em filmar um western na lua. (risos)

Que importância atribuis aos espectadores?

Quero torná-los parte da experiência destas pessoas. Quero quebrar o muro que existe entre o écran e os olhos dos espectadores.

Partes de alguma idéia para os filmes?

Nenhuma idéia, só quero filmar pessoas que sabem o que querem.

Que importância dás aos momentos silenciosos nos teus filmes?

Às vezes precisamos de silêncio. Há filmes que têm excesso de música. Há belas peças de música, mas que matam as cenas.

Qual o teu ator favorito de sempre?

Marlon Brando. Não precisa dizer “sim”, “não” ou “talvez”. Pela expressão e pela presença percebemos tudo.

Sente-se uma grande intimidade entre os atores nos teus filmes, sobretudo no Heaven’s Gate e no The Deer Hunter... Onde acaba a vida e começa o cinema?

O John Cazale estava a morrer com um câncer quando rodamos The Deer Hunter. A cena do funeral é bastante dolorosa. Encontrei-o várias vezes durante a rodagem a olhar para as flores que a neve não tinha coberto. Ele gostava tanto de representar que até no hospital perguntou como tinha sido a sua prestação.

Quais os cineastas que mais te marcaram?

Gosto dos cavaleiros do Kurosawa, das montanhas e vales do John Ford e de um par para dançar à Fred Astaire. Gosto de filmes feitos por poetas.

Quais os melhores realizadores da atualidade?

Não sei, mas não incluo o Scorsese.

Que outros criadores te influenciaram?

Adoro Pushkin e Kandinsky.

Como vês o cada vez maior abuso de efeitos especiais no cinema?

No cinema e na televisão... Para quê estar em frente à TV? É uma perda de tempo. Por que não vão para a rua ver pessoas? Em A Bela e a Fera, o Jean Cocteau faz-te acreditar nessa história de amor sem efeitos especiais. Apenas precisou da imaginação. Quando tu acreditas em algo e tens imaginação e fé, acabas por encontrá-lo.

O que é uma câmera de filmar para ti?

Um vil objeto mecânico, o que importa é o que se passa à frente. O Orson Welles gritava “destruam a máquina!”; o John Ford, quando lhe perguntaram como tinha feito um determinado plano fabuloso, respondeu: “com a câmera!” (risos)

(novembro 2005)

 

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