UM WESTERN EXEMPLAR: SETE HOMENS SEM DESTINO (Budd Boetticher, 1956)
por André Bazin


Eis a ocasião para aplicar o que escrevi sobre a política dos autores. Minha admiração por Sete Homens Sem Destino não me fará concluir que Budd Boetticher é o maior realizador de westerns - embora não exclua tal hipótese -, mas somente que seu filme talvez seja o melhor western que vi desde a guerra. Só a lembrança de O Preço de um Homem e Rastros de Ódio me forçariam a fazer uma reticência. É efetivamente difícil discernir com certeza, entre as qualidades desse filme excepcional, as que dependem especificamente da mise en scène, do roteiro e de um diálogo fascinante, sem falar, naturalmente, das virtudes anônimas da tradição que só querem florescer quando as condições de produção não as contrariam. Confesso só ter, infelizmente, uma bem vaga lembrança dos outros westerns de Boetticher para saber qual a parte, no êxito deste, das circunstâncias ou dos acasos, parte que quase não existe, devo admitir, em um Anthony Mann. Seja qual for o caso, e mesmo que Sete Homens Sem Destino seja o resultado de uma conjuntura excepcional, não deixo de considerá-lo como um dos êxitos exemplares do western contemporâneo.

Que o leitor me desculpe se não pode verificar o que digo, sei que falo de uma obra que provavelmente ele não verá. Assim decidem os distribuidores. Sete Homens Sem Destino só foi apresentado em versão original, numa pequena sala dos Champs-Élysées. Se o filme não foi dublado, vocês não o encontrarão nos bairros. Situação simétrica à de outra obra-prima sacrificada, Rastros de Ódio, de John Ford, lançada igualmente em pleno verão.

É que o western continua a ser o gênero menos compreendido. Para o produtor e o distribuidor, o western não passa de um filme infantil e popular fadado a terminar na televisão, ou uma superprodução ambiciosa com grandes vedetes. Apenas a bilheteria dos intérpretes ou do diretor justifica o esforço de publicidade e de distribuição. Entre os dois, fica-se ao Deus dará e ninguém - não mais, é preciso dizer, a crítica que o distribuidor - faz a diferença sensível entre os filmes produzidos com a marca western. Foi assim que Os Brutos Também Amam, superprodução ambiciosa da Paramount para as bodas de ouro cinematográficas de Zukor, foi saudado como uma obra-prima e que Sete Homens Sem Destino, muito superior ao filme de Stevens, passará despercebido e reintegrará provavelmente as gavetas da Warner, de onde será tirado apenas para tapar algum buraco.

O problema fundamental do western contemporâneo está sem dúvida no dilema da inteligência e da ingenuidade. Hoje, o western só pode, na maioria das vezes, continuar a ser simples e conforme à tradição sendo vulgar e idiota. Toda uma produção de segunda categoria persiste sobre essas bases. É que, desde Thomas Ince e William Hart, o cinema evoluiu. Gênero convencional e simplista em seus dados primitivos, o western deve, no entanto, tornar-se adulto e ficar inteligente se quiser se situar no mesmo plano que os filmes dignos de serem criticados. Desse modo apareceram os westerns psicológicos, com tese social ou mais ou menos filosófica, os westerns significantes. O cúmulo dessa evolução é justamente representado por Os Brutos Também Amam, western em segundo grau, no qual a mitologia do gênero é conscientemente tratada como o tema do filme. Sendo a beleza do western proveniente especialmente da espontaneidade e da perfeita inconsciência da mitologia dissolvida nele como o sal no mar, essa destilação laboriosa é uma operação contra a própria natureza, que destrói aquilo que ela revela.

Mas será que podemos ainda seguir diretamente o estilo de Thomas Ince, ignorando quarenta anos de evolução cinematográfica? É evidente que não. No Tempo das Diligências ilustra sem dúvida o extremo limite de um equilíbrio ainda clássico entre as regras primitivas, a inteligência do roteiro e o esteticismo da forma. Depois dele, temos o formalismo barroco e o intelectualismo dos símbolos, temos Matar ou Morrer. Somente Anthony Mann parece ter sabido encontrar a naturalidade através da sinceridade, porém, mais do que seus roteiros, é sua mise en scène que faz com que seus westerns sejam os mais puros do pós-guerra. Ora, o roteiro também é um elemento constitutivo do western, tanto quanto o emprego do horizonte e do lirismo da paisagem. Aliás, minha admiração por Anthony Mann foi sempre um pouco perturbada pelas imperfeições que ele tolerava em suas adaptações.

Por isso, a primeira surpresa que nos dá Sete Homens Sem Destino vem da perfeição de um roteiro que realiza a proeza de nos surpreender continuamente a partir de uma trama rigorosamente clássica. Nada de símbolos, nem de segundas intenções filosóficas, nem sombra de psicologia, nada de personagens senão ultra-convencionais com funções do arco da velha, mas uma organização extraordinariamente engenhosa e, sobretudo, uma invenção constante quantos aos detalhes capazes de renovar o interesse das situações. O herói do filme, Randolph Scott, é um xerife em perseguição a sete bandidos que mataram sua mulher roubando os cofres da Wells Fargo. Trata-se de alcançá-los atravessando o deserto antes que eles atravessem a fronteira com o dinheiro roubado. Outro homem fica logo interessado em ajudá-lo, mas por um motivo bem diferente. Quando os bandidos estiverem mortos, ele poderá talvez se apropriar de 20 mil dólares. Talvez, se não for impedido pelo xerife; caso contrário, seria preciso matar mais um homem. Desse modo, a linha dramática é claramente apresentada. O xerife age por vingança, seu companheiro por interesse; no final, o ajuste de contas será entre eles. Essa história poderia dar em um western chato e banal se o roteiro não fosse construído sobre uma série de surpresas que não revelarei para não tirar o prazer do leitor, se este tiver a sorte de ver o filme. No entanto, mais ainda que a invenção das peripécias, é o humor do tratamento delas que me parece notável. Assim, por exemplo, nunca vemos o xerife atirar, como se ele atirasse rápido demais para que a câmera tivesse tempo de fazer o contracampo. A mesma vontade de humor justifica também, certamente, os trajes bonitos ou provocantes demais de Gail Russell ou, ainda, as elipses inesperadas da decupagem dramática. Certas cenas nos fazem mesmo rir ou sorrir. Mas o mais admirável é que o humor aqui não vai de modo algum de encontro à emoção e ainda menos à admiração. Não há nada de paródico! Ele supõe apenas por parte do diretor a consciência e inteligência das molas que ele põe em movimento, sem nada, porém, de menosprezante ou de condescendente. O humor não nasce de um sentimento de superioridade, mas muito pelo contrário, de uma superabundância de admiração. Quando amamos a tal ponto os heróis que animamos e as situações que inventamos, então e somente então podemos tomar uma distância humorística deles, que multiplica a admiração pela lucidez. Tal ironia não diminui os personagens, mas permite que a ingenuidade deles coexista com a inteligência. Esse é, com efeito, um dos westerns mais inteligentes que conheço, mas também o menos intelectual; o mais refinado e menos esteticista; o mais simples e o mais belo.

Essa dialética paradoxal foi possível porque Boetticher e seu roteirista não tomaram o partido de dominar o assunto por paternalismo ou de “enriquecê-lo” com contribuições psicológicas, mas simplesmente de levar a sua lógica até o fim e de tirar todos os efeitos da concretização das situações. A emoção nasce das relações mais abstratas e da beleza mais concreta. O realismo, tão imperativo nos westerns históricos ou psicológicos, não tem mais sentido aqui do que nos filmes da Triangle, nos quais um esplendor específico surge antes da superposição da extrema convenção e do extremo realismo. Boetticher soube se servir prodigiosamente da paisagem, da matéria variada da terra, do grão e da forma dos rochedos. Também penso que a fotogenia do cavalo há muito tempo não tinha sido tão bem explorada. Por exemplo, na extraordinária cena do banho de Gail Russell, na qual o pudor inerente ao western é levado, com humor, tão longe que só nos é mostrado o movimento da água nos bambus, enquanto a cinqüenta metros dali Randolph Scott atrela os cavalos. É difícil imaginar a um só tempo mais abstração e mais transferência no erotismo. Penso também na crina do cavalo do xerife e em seu grande olho amarelo. Saber usar tais detalhes é seguramente mais importante no western do que saber executar uma batalha com cem índios.

É preciso, com efeito, realçar o uso totalmente insólito da cor nesse filme. Favorecidas, é verdade, por uma procedência cujas características ignoro, as cores de Sete Homens Sem Destino são uniformemente transpostas numa tonalidade aguda que lembra por sua transparência e superfície de cores, as antigas cores dos filmes pintados a mão. É como se as convenções da cor viessem assim salientar as da ação.

Há, enfim, Randolph Scott, cujo rosto lembra irresistivelmente o de William Hart até a sublime inexpressividade dos olhos azuis. Não há nenhum jogo de fisionomia, nem sombra de pensamento ou de um sentimento, sem que tal impassibilidade, é óbvio, tenha algo a ver com a interioridade moderna de um Marlon Brando. Esse rosto não traduz nada, pois não há nada para ser traduzido. Todas as coordenadas da ação são definidas aqui pelos empregos e pelas circunstâncias. Até o amor de Randolph Scott por Gail Russell, o qual sabemos exatamente quando nasceu (durante o banho) e como ele evoluiu, sem que em momento algum o rosto do herói traduzisse um sentimento. Mas ele está inscrito na combinação dos acontecimentos como o destino na conjuntura dos astros: necessário e objetivo. Qualquer expressão subjetiva teria então a vulgaridade de um pleonasmo. Não é por isso que nos ligamos menos aos personagens, muito pelo contrário: a existência deles é mais plena por não dever nada às incertezas e às ambigüidades da psicologia, e quando, no final do filme, Randolph Scott e Lee Marvin se encontram cara a cara, o dilaceramento ao qual sabemos estar condenados é emocionante e belo como uma tragédia.

Desse modo, é caminhando que o movimento fica provado. O western não está condenado a se justificar pelo intelectualismo ou pela espetacularidade. A inteligência que exigimos hoje pode servir para apurar as estruturas primitivas do western e não para meditar sobre elas ou desviá-las em prol de interesses alheios à essência do gênero.

(Cahiers du Cinéma nº 74, agosto-setembro 1957, pp. 45-48. Traduzido por Eloisa de Araújo Ribeiro)

 

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