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CÃO BRANCO por Inácio Araujo (White
Dog). 1982. Paramount (90 minutos). Produtor: Jon Davison. Produção
executiva: Edgar J. Scherick, Nick Vanoff. Produtor associado: Richard
Hashimoto. Roteiro: Samuel Fuller e Curtis Hanson, baseado em conto de Romain
Gary. Fotografia: Bruce Surtees (Metrocolor). Música: Ennio Morricone.
Cenografia: Brian Eatwell (p.d.), Barbara Krieger (s.d.). Montagem: Bernard Gribble. Elenco: Kristy McNichol
(Julie Sawyer), Paul Winfield (Keys), Burl Ives (Carruthers), Jameson Parker
(Roland Gray), Lynne Moody (Molly), Martine Dawson (Martine), Bob Minor
(Joe), Sam Laws (Charlie), Parley Baer (Wilber Hull), Karl Lewis Miller
(agressor), Jamie L. Crowe (Theona), Christa Lang (enfermeira), Samantha
Fuller (Helen), Marshall Thompson (diretor), Paul Bartel (operador de
câmera), Richard Monahan (assistente de direção), Neyle Morrow (sonoplasta),
Dick Miller (adestrador #1), Robert Ritchie (adestrador #2). Lente de Fuller disseca o racismo Samuel
Fuller tornou-se mais conhecido no Brasil por algumas homenagens que alguns
colegas europeus lhe fizeram do que por seus filmes: ele foi o gângster de
charuto de O Amigo Americano, de Wim Wenders, o fotógrafo de O
Estado das Coisas, do mesmo Wenders. Antes disso, dissera uma frase clássica
em Pierrot le fou, de Godard: “O cinema é um campo de batalha.” Nem isso
levou o Brasil a se apaixonar por seus biscoitos finos e os últimos filmes
desse americano mostrados no Brasil fracassaram miseravelmente: Em Ritmo
de Assassinato (1973) ficou três dias em cartaz no cine Marabá; Agonia
e Glória (1980), não emplacou segunda semana. O estranho, portanto, não é
que Cão Branco sequer tenha sido mostrado Um pequeno
parêntese: a carreira de Fuller se caracteriza por tomar temas triviais,
entrando sempre pela porta dos fundos. Já em sua estréia, Matei Jesse
James (1949), não era o herói o centro de interesse, mas seu assassino.
Para mostrar a guerra, não buscou falar dos grandes comandantes, mas do
general de Divisão Merrill, Cão Branco é outra
entrada de Fuller pela porta dos fundos, esta por onde passam os empregados e
tudo mais que não deve enevoar a paisagem impoluta que o olhar oficial
procura fixar das coisas. Como o tema é o racismo, o autor foi ao que de mais
profundo e irracional este fenômeno poderia produzir, o cão branco: entidade
surgida - conforme explica o filme - para perseguir escravos fugidos e, mais
tarde, prisioneiros negros. O cão branco situa-se, assim, um estágio além do
linchamento, na medida em que é produto da sistematização do ódio: seu
caráter é permanente para o cão condicionado a atacar negros e, em princípio,
irreversível. Sua pele é o lugar onde se inscreveu séculos de uma história de
intolerâncias - é sua poesia e seu produto. Se o
assunto não é indiferente ao filme, sabe qualquer espectador com um pouco de
prática que é fácil um bom tema morrer nas mãos de um diretor rotineiro. É
tudo que Fuller evita. Sua carreira tem sido um corpo-a-corpo com a linguagem
do cinema; baseia-se em grande parte na capacidade de reverter as
dificuldades causadas pelos pequenos orçamentos que tem a seu dispor e
transformá-las em virtudes. Cai fora a figuração, por exemplo, até porque um
filme se faz com idéias. Em compensação, coloca-se no centro da história o
próprio cão: o branco de seus pêlos, que em determinado momento podem se
encher de manchas de sangue; sua expressão, variando da ternura externa à
máxima ferocidade, a elegância do porte: qualidades que nem por um instante
nos deixam esquecer que sua marca essencial é o silêncio - o curto-circuito
total com a razão, que o torna imprevisível. Como contraponto ao cão branco,
Fuller fixa a figura de Keys, o domador de animais negro, que aceita o
desafio de eliminar o condicionamento do cão. Keys
entende que o verdadeiro desafio não é eliminar o cão, mas seu racismo. Se
conseguir, terá demonstrado que o racismo é, também ele, extirpável, pois o
inimigo não é a fera que pretende amansar, mas o cérebro secular que o criou.
O desenvolvimento do filme servirá como demonstração límpida de que o
racismo, enquanto fenômeno, gera distorções que vão muito além do que podem
prever seja o racista, seja o anti-racista. O cão branco é, afinal, um
cérebro tão dotado para a errância quanto o jornalista de Paixões Que Alucinam, que para
descobrir um assassino dentro de um manicômio termina, ele próprio, alienado
(e, ironia principal, ganha o prêmio Pullitzer). Mas se
enganará quem pensar que Cão Branco é um filme “reflexivo”. O cinema
de Fuller é de ação: sangue, gritos, morte, suspense - nada está fora de seu
horizonte muito americano. O que não deve levar a crer que estamos diante
algo do tipo A Gang dos Doberman ou qualquer outro “dog movie”
recente. Fuller conjuga suas filmagens na ordem direta, fiel à sua juventude
de jornalista, mas os caminhos são tortuosos como os de seu mestre Fritz
Lang. Do formidável ataque do cão durante uma filmagem (em “back projection”
mostram-se imagens plácidas de Veneza), ao assassinato de um negro no
interior de uma igreja, tendo como testemunhas inertes dois santos, nenhum
momento é destituído dessa idéia central na obra de Fuller: a de batalha. Que
consiga gelar o sangue do mais frio dos espectadores com uma discrição que os
narradores mais recentes não estão acostumados, é um mérito complementar, mas
não secundário deste filme notável. (Folha de São Paulo, 9 de junho de
1988) |
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